Vamos
fazer uma reflexão sobre quais deveriam ser os 04 pilares básicos de uma
empresa para buscar a certificação, seja nas normas ISO ou similares. Para isso
abordarei alguns pontos que permitirão encadear o raciocino para esta análise.
Se
perguntar para funcionários, fornecedores ou clientes qual a sua visão sobre a real
importância de um certificado ISO, certamente haverá respostas distintas. Porém,
cada grupo tenderá a ter uma visão semelhante em torno de um ponto específico
que poderíamos resumir assim:
-
Funcionários: Melhorar
a eficiência, a imagem e a competitividade da empresa;
-
Fornecedores: Maior
rigidez nos controles e especificações dos insumos e serviços, além de atender
as exigências dos clientes e parceiros;
-
Clientes: Receber
produtos e serviços pactuados ou melhorados e dentro do prazo.
As
normas englobam estes e muitos outros pontos. Porém, como o foco deste artigo é
o que ocorre dentro da empresa, me deterei na visão dos funcionários.
Que
as empresas certificadas terão mais credibilidade e facilidade de negociação no
mercado do que as empresas sem essa certificação, não há qualquer dúvidas.
Entretanto, apenas ter um certificado não é sinônimo de produto, serviço ou
atendimento de qualidade, no sentido explícito da palavra, mas apenas “prova” que
a empresa “atua” conforme os controles e requisitos da norma e “cumpre” as
especificações dos produtos e serviços pactuados com os clientes.
Temos
então uma “lacuna” que abordarei entre o “Certificado” e o resultado final que
o cliente recebe e percebe. Esta “lacuna” corresponde a todas as etapas de
gestão e processos produtivos nas empresas, sendo estes realizados pelos
colaboradores em sua maioria. Fica claro que a validação de tudo que é
produzido tem como geradores e responsáveis os colaboradores (funcionários e
terceiros) e não um certificado impresso.
“Atualmente
os colaboradores não são mais vistos como máquinas ou meios de produção, mas
sim como indivíduos dotados de habilidades, capacidades e conhecimentos
indispensáveis para administrar suas próprias tarefas, ou seja, receberam um
papel de importância nas empresas.” (CHIAVENATO, 2005). Sendo assim, tudo que é
importante deve ser proporcionalmente valorizado.
Nesse
prisma precisamos entender que o foco dos gestores deve estar nos colaboradores,
propiciando a estes todas as condições necessárias para um trabalho saudável,
seguro, prazeroso e eficaz. Colaboradores contentes mantém melhor sua saúde,
são mais ativos, criativos e produzem mais e melhor, além de promover uma
grande redução na rotatividade de mão de obra e eventual redução dos
desperdícios dos recursos da empresa de modo geral.
Vergara
(2000, p. 66) relata que: “Como somos diferentes uns dos outros, nossas
motivações também o são. Alguém pode sentir-se predominantemente motivado por
fatores econômico-financeiros e todas as suas possibilidades em termos de
aquisição de bens e serviços. Se o trabalho lhe proporciona benefícios dessa
ordem, é possível que nele encontre significado. Outro pode sentir-se
predominantemente motivado pelo desejo de ser saudável, de ser amado, de
sentir-se competente, de ser reconhecido, de participar de decisões, de
realizar tarefas intrinsecamente desafiadoras e instigadoras ou outra coisa
qualquer”.
Vemos
então que a qualidade se inicia nas condições do ambiente de trabalho, muito
antes de iniciado qualquer programa ou sistemática de normatização. Uma empresa
estruturada e com boas condições de trabalho está a um pequeno passo de obter
facilmente uma certificação, enquanto que uma empresa desestruturada ou com
ambiente não tão satisfatório terá muita dificuldade em implantar tais normas e
conseguir a efetiva certificação. Contudo, mesmo que obtenha a certificação,
poderá ter sérios problemas, já que a base da qualidade poderá estar
comprometida.
Frequentemente
presenciamos problemas ocorrendo em empresas certificadas, decorrentes da falta
de empenho dos gestores em promover ambientes de trabalho mais saudáveis.
Nestas empresas é comum ouvir dos funcionários, que a qualidade é algo de um
departamento específico, já que em muitos casos ocorre uma centralização destas
atividades.
Não ter preocupação com o ambiente de trabalho, geralmente cria ambientes negativos, ex:
- Exclui a participação da maioria dos colaboradores;
- Sobrecarrega outros;
- Gera cobrança entre funcionários e departamentos.
- Intrigas e “jogo” de egos.
- Promove a falta de comprometimento e da pró-atividade.
- Acarreta desmotivação.
- Reduz a produtividade dos colaboradores e da empresa.
- Pode produzir falhas frequentes e consequentemente sua omissão.
Estes
são os principais problemas quando não damos a devida atenção ao ambiente de
trabalho e principalmente aos colaboradores.
Com
o que já vimos até aqui e voltando a pergunta do início sobre a importância de
um certificado ISO, poderemos identificar a total discordância entre a real
percepção dos funcionários sobre o que é qualidade e o que geralmente deveria
ser percebido (
Melhorar a eficiência, a
imagem e a competitividade da empresa).
Para
“arrumar” ou colocar as coisas nos eixos, precisaremos conhecer e encadear os
pilares para que possamos transformar essa discordância em convergência, tanto
de ações como nas percepções.
Como
já percebemos que o foco deve estar nos colaboradores através do bom ambiente
de trabalho, para checar nesse ponto precisamos inicialmente identificar e fortalecer os 04 pilares que são:
O primeiro
é a
Organização da empresa. Tal organização envolve tanto a parte
estrutural como operacional, passando por documentação, informatização,
automatização, etc.
O
segundo é a
Definição clara das Responsabilidades, sem isso é impossível
realizar ou cobrar a realização das ações necessárias, bem como conduzir de
forma minimamente satisfatória qualquer empresa.
O
terceiro é representado pelos
Treinamentos por onde consolidamos todas as
ações e competências de nossa equipe.
Já
o quarto pilar é o
Comprometimento que está totalmente relacionado com o que
abordamos até o momento, ou seja, o foco nos colaboradores. Porém para
consolidá-lo os gestores devem criar os meios necessários através do
desenvolvimento de um ambiente saudável, atentando-se na motivação de suas
equipes. Esta motivação depende de vários fatores como:
-
Salários condizentes com os cargos e o mercado;
- Instalações adequadas para o desempenho de cada função;
- Qualificação e treinamentos apropriados.
- Equipamentos de segurança disponíveis, revisados e verificado seu uso efetivo.
- Organização e Limpeza.
- Cumprimento às regras, normas e legislações.
- Canais para comunicação interna facilitados e com feedback.
- Oferecer, sempre que possível, os benefícios agregadores que tornam o salário apenas uma parte dos proventos de cada trabalhador.
- Plano de carreira com regras claras e coerentes para promoções e contratações.
Estes
são apenas os pontos básicos para gerar as condições de um bom ambiente de
trabalho. Cada empresa deve adequá-los as suas possibilidades, necessidades e particularidades.
Podemos
salientar que uma forma eficaz de identificação das reais necessidades
individuais de capacitação, bem como a otimização dos recursos com
treinamentos, é utilizar a metodologia do PAD – Programa de Avaliação de
Desempenho no modelo 360º. Esta é atualmente a metodologia mais eficaz para
avaliar as competências dos colaboradores e definir a real necessidade de
treinamento para cada um, excluindo os “achismos” dos superiores e evitando
desperdício de recursos valiosos. Além disso, esta metodologia permite
identificar o potencial de cada um e possíveis candidatos a promoções.
Conclusão
Podemos
constatar que um bom ambiente de trabalho promove o bem estar dos funcionários
e também gera benefícios à empresa. O investimento feito em certos pontos
poderá trazer resultados muito maiores em várias áreas, pois esse bom ambiente
interno acaba refletindo no externo e impactando na imagem da empresa no
mercado.
Funcionários
satisfeitos e contentes se preocupam com a empresa, não apenas por quererem
manter seus bons empregos, mas principalmente porque gostam de onde estão e do
que fazem. Nesse cenário a implantação de uma norma ISO é muito fácil, rápida e
sua percepção será de complemento e melhoria e não de aumento do trabalho
individual.
Este
é o melhor resultado possível, pois a qualidade real estará implantada, tanto em
nível dos controles e normatização dos procedimentos (certificação), como pela
participação e comprometimento de todos (ambiente saudável). O mercado sabe
distinguir as empresas que realmente praticam a certificação daquelas que
apenas possuem um certificado.
Assim
podemos aceitar que atingir a certificação é mais uma consequência da
organização e do ambiente de uma empresa, em função da estabilidade de seus
pilares, do que focar em sua obtenção exclusivamente como objetivo para alcançar
um possível crescimento ou sobrevivência.
Referências:
- CHIAVENATO,
Idalberto. Gerenciando com as Pessoas: Transformando o executivo em um
excelente gestor de pessoas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
- VERGARA, Sylvia Constant. Gestão de pessoas. São Paulo: Atlas, 2000.